Izabel, Pedaços da Minha Vida

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Lembraças de um Aprendizado

 

 

Quantas mentiras me contaram; foram tantas, e lembro que no começo eu acreditava. Depois lembro que comecei a me sentir culpada por ter sido burra em acreditar no ser humano, achando que ali estava a sua essência. Mas uma coisa é certa, desde aquela época tudo que eu queria era ser feliz.

A possibilidade de colaborar pela mudança do meu ex-marido me fazia acordar diariamente. A sensação de ser útil me tranqüilizava em viver dia após dia. Tudo que eu mais queria naquela época da minha vida era vencer. Até que acordei, me olhei no espelho e vi o reflexo da imagem de uma vencedora nata. Eu já nasci uma VENCEDORA.

 

Tomei coragem e me separei sem medo de nada. Mesmo sendo ameaçada de morte eu não temia a morte. Eu cheguei a conclusão que estar ao lado dele significava deixar de viver, e correr diário risco de vida.

Lembro que quando anunciei a separação a meu ex-marido ele deu gargalhadas. Ele me disse você vai embora? Pois que vá. Mas você não leva nada dessa casa. E me disse mais: quero ver quanto tempo você vai ficar longe das mordomias que eu lhe dou. Naquele dia ele não economizou ofensas, fez questão de chamar meu pai de irresponsável e dizer que nem minha mãe me quis. Tudo que ele queria era me fragilizar. Ele pensou que eu mudaria de opinião. Mas eu segui em frente, eu estava decidida, e saí de casa levando minhas roupas, e as de minhas filhas, meus quadros, e uma vitrola de marca TATERKA que meu pai havia me presenteado de 15 anos.

 

Saí do meu casamento disposta a trabalhar. Meus dias eram duros, e meu maior desafio era conciliar as funções de mãe, provedora do lar, e minha carreira profissional. Eu precisava me qualificar, meu objetivo era ser um diferencial. Tinha que ser mulher, mais não podia ser meiga, eu precisava falar a linguagem dos homens para ser respeitada por eles. E foi preciso estudar o comportamento profissional masculino para eu consegui ser parecida com eles.

Eu era a provedora da minha casa. Trabalhava como um homem durante o dia e a noite me dedicava de corpo e alma a minhas filhas. Lembro que quando eu me separei, Talita (a minha caçula) tinha 15 dias, era apenas um bebe, e à noite, quando eu deveria estar dormindo, ela acordava chorando de fome.

 

Quatro meses depois de separada comecei a namorar o primeiro verdadeiro homem da minha vida. Ainda assim, tendo um dia exaustivo dentro de um Banco, onde eu acumulava 3 funções (recepcionista, telefonista e teleptista), e trabalhava 3 turnos, das 7:00 às 22 horas.  Quando eu chegava em casa, eu era a mãezona.

Minha empregada era babá de três, de minhas filhas e minha.

Lembro que ela mesmo sendo testemunha de Jeová, chegava a me aconselhar sair para me divertir, tamanha comoção do estado de trapo humano que eu vivia. Lembro também que ela ainda opinava na roupa que eu usava.

Ela ficava em minha casa comigo o tempo todo, e de 15 em 15 dias ela ia para a casa dela ver sua mãe e suas filhas. Nesses dias minha filha mais velha Mariana ia para a casa do pai, e a minha Tata ia para a casa dela com ela.

Perdi a conta das vezes que deitei no colo dela chorando, e também dos dias que ela me cobria e tirava meus sapatos. Eu tinha o hábito de deitar na minha cama com as crianças e sempre acabava dormindo primeiro.

 

Meu namorado era meu maior fã. Seus olhos brilhavam em me ver, e ele não media esforços para me fazer feliz.

Ele me pegava no Banco todos os dias, e quando ele queria me seqüestrar ele passava na minha casa primeiro. Avisava a minha babá e trazia uma muda de roupa para mim.

Uma vez no mês nós íamos dançar Salsa lá no Vagão (um bar que funcionava em um vagão de um trem). Ambiente intelectual, que reunia pessoas despojadas em busca de música em plena quarta-feira. Trocávamos idéias sobre os mais diversos assuntos. Dormíamos juntos apenas uma vez na semana (geralmente nas quartas) e nos finais de semana que eu estava sem as crianças. Nos demais era apenas alguns beijinhos de despedida no carro, e muito raramente ele subia no meu apartamento para me fazer dormir.

 

Nunca fui uma mulher feminina, daquelas que gostam de flores, que freqüentam salão de beleza. Ao contrário. Sempre comi minhas unhas, e tive o estilo selvagem. Uma mulher forte, com cabelos cacheados e longos. Usava e abusava de decotes, de óculos escuros e de aneis. Sapato alto só quando eu queria ser exuberantemente sensual. E de maquiagem somente um lápis de olho, rímel e batom.

 

O glamour da minha porção mulher que me deixa apta a fazer os charmes que enlouquece os homens, é baseado em duas coisas: tempo e dinheiro. Tempo para hidratar os cabelos, relaxar e sorrir, e dinheiro para pagar uma excelente empregada, e para fazer meu parceiro sentir que nada mais me unia a ele, que não fosse ele mesmo.

 

Sempre ouvi dizer que o trabalho enobrecia, mas sinceramente eu acho mesmo que o trabalho envelhece, destrói, estressa, mas dá a liberdade, a autonomia, o poder de realização, e mantém o meu nariz de pé.

 

 

O relógio foi com quem mais briguei na minha vida.

Aprendi a decidi que roupa usar em apenas 5 minutos.

Na minha bolsa sempre teve um mini porta bijuteria, um porta batom, espelho e uma escova de cabelo.

 

Lembro quando eu trabalhava em uma multinacional. O Ônibus passava na esquina da minha casa 5:50. Nessa época eu ainda cantava na noite de quinta a domingo. Cansei de chegar em casa as 4:30 e nem ter tempo de dormi. Tomava um banho e já colocava a roupa do trabalho. Perdi a conta das vezes que dormi do Rio Vermelho até o Pólo Petroquímico de Camaçari, o que me rendeu o apelido de soninho. O sono do percurso era o suficiente para me fazer acordar na porta da empresa toda amarrotada, porém com o espírito renovado. Lembro também que já cheguei a tomar 12 comprimidos de guaraná por dia para me manter acesa.

 

Aprendi a olhar um homem como um parceiro e não como um problema.

Minha tolerância com homens era mínima.

Diferente de minhas colegas de trabalho e amigas eu nunca tive um namorado que aprontasse, nem tão pouco tive um namorado que me fizesse pensar que não viveria sem ele.

Quando fui traída pelo grande amor da minha vida. Naquele instante que vi ele com outra, tive a sensação que ele havia perdido a única mulher capaz de lhe fazer feliz. Por mais que me doesse aquela cena, eu disse para mim mesma que eu jamais seria só dele, e surpreendendo a todos, inclusive a mim mesma, eu não excitei em abandoná-lo mesmo o amando. Sinceramente? tudo que eu mais estava evitando era problemas.

 

Literalmente eu não nasci para conviver com um ser humano sem confiar nele, mesmo que seja meu homem.

 

Mesmo porque quando me separei do pai das minhas filhas, meu primeiro marido eu prometi a mim mesma que nenhum homem voltaria a me fazer sofrer.

Ali eu decidi que trabalharia para ter tudo que eu desejava. Não aceitaria nada de homem algum.

Tudo que eu sonhava era em ser feliz.

Eu descobri que a minha felicidade estava ao meu alcance.

A medida que não precisasse pedir nada a ninguém.

 

Assim como eu não nasci com o dom de dizer um NÃO, também tenho dificuldades em ouvir um NÃO.

 

Concordo que não é fácil ser uma mulher de verdade; digo até que é uma missão quase que impossível, mas que exercitada diariamente torna-se possível.

  Em prantos fico por aqui.  

 

Mande esse link para uma pessoa especial: http://1frutoproibido.com/fp-pv-l1a.htm

 

Escrito e postado por Izabel Cristina da Fonseca, 14 de maio de 2009. (2639)

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