
Lembraças de um Aprendizado
Quantas
mentiras me contaram; foram tantas, e lembro
que no começo eu acreditava. Depois lembro que
comecei a me sentir culpada por ter sido burra
em acreditar no ser humano, achando que ali
estava a sua essência. Mas uma coisa é certa,
desde aquela época tudo que eu queria era ser
feliz.
A possibilidade
de colaborar pela mudança do meu ex-marido me
fazia acordar diariamente. A sensação de ser
útil me tranqüilizava em viver dia após dia.
Tudo que eu mais queria naquela época da minha
vida era vencer. Até que acordei, me olhei no
espelho e vi o reflexo da imagem de uma
vencedora nata.
Eu já
nasci uma VENCEDORA.
Tomei
coragem e me separei sem medo de nada. Mesmo
sendo ameaçada de morte eu não temia a morte.
Eu
cheguei a conclusão que estar ao lado dele
significava deixar de viver, e correr diário
risco de vida.
Lembro que quando
anunciei a separação a meu ex-marido ele deu
gargalhadas. Ele me disse você vai embora?
Pois que vá. Mas você não leva nada dessa
casa. E me disse mais: quero ver quanto tempo
você vai ficar longe das mordomias que eu lhe
dou. Naquele dia ele não economizou ofensas,
fez questão de chamar meu pai de irresponsável
e dizer que nem minha mãe me quis. Tudo que
ele queria era me fragilizar. Ele pensou que
eu mudaria de opinião. Mas eu segui em frente,
eu estava decidida, e saí de casa
levando minhas roupas, e as de minhas filhas,
meus quadros, e uma vitrola de marca TATERKA
que meu pai havia me presenteado de 15 anos.
Saí
do meu casamento disposta a trabalhar.
Meus dias eram duros, e meu maior desafio era
conciliar as funções de mãe, provedora do lar,
e minha carreira profissional. Eu precisava me
qualificar, meu objetivo era ser um
diferencial. Tinha que ser mulher, mais não
podia ser meiga, eu precisava falar a
linguagem dos homens para ser respeitada por
eles. E foi preciso estudar o comportamento
profissional masculino para eu consegui ser
parecida com eles.
Eu era a
provedora da minha casa. Trabalhava como um
homem durante o dia e a noite me dedicava de
corpo e alma a minhas filhas. Lembro que
quando eu me separei, Talita (a minha caçula)
tinha 15 dias, era apenas um bebe, e à noite,
quando eu deveria estar dormindo, ela acordava
chorando de fome.
Quatro
meses depois de separada comecei a namorar o
primeiro verdadeiro homem da minha vida. Ainda
assim, tendo um dia exaustivo dentro de um
Banco, onde eu acumulava 3 funções
(recepcionista, telefonista e teleptista), e
trabalhava 3 turnos, das 7:00 às 22 horas.
Quando
eu chegava em casa, eu era a mãezona.
Minha empregada
era babá de três, de minhas filhas e minha.
Lembro que ela
mesmo sendo testemunha de Jeová, chegava a me
aconselhar sair para me divertir, tamanha
comoção do estado de trapo humano que eu
vivia. Lembro também que ela ainda opinava na
roupa que eu usava.
Ela ficava em
minha casa comigo o tempo todo, e de 15 em 15
dias ela ia para a casa dela ver sua mãe e
suas filhas. Nesses dias minha filha mais
velha Mariana ia para a casa do pai, e a minha
Tata ia para a casa dela com ela.
Perdi a conta das
vezes que deitei no colo dela chorando, e
também dos dias que ela me cobria e tirava
meus sapatos.
Eu tinha
o hábito de deitar na minha cama com as
crianças e sempre acabava dormindo primeiro.
Meu
namorado era meu maior fã. Seus olhos
brilhavam em me ver, e ele não media esforços
para me fazer feliz.
Ele me pegava no
Banco todos os dias, e quando ele queria me
seqüestrar ele passava na minha casa primeiro.
Avisava a minha babá e trazia uma muda de
roupa para mim.
Uma vez no mês
nós íamos dançar Salsa lá no Vagão (um bar que
funcionava em um vagão de um trem). Ambiente
intelectual, que reunia pessoas despojadas em
busca de música em plena quarta-feira.
Trocávamos idéias sobre os mais diversos
assuntos. Dormíamos juntos apenas uma vez na
semana (geralmente nas quartas) e nos finais
de semana que eu estava sem as crianças. Nos
demais era apenas alguns beijinhos de
despedida no carro, e muito raramente ele
subia no meu apartamento para me fazer dormir.
Nunca
fui uma mulher feminina, daquelas que gostam
de flores, que freqüentam salão de beleza.
Ao contrário. Sempre comi minhas unhas, e tive
o estilo selvagem. Uma mulher forte, com
cabelos cacheados e longos. Usava e abusava de
decotes, de óculos escuros e de aneis. Sapato
alto só quando eu queria ser exuberantemente
sensual. E de maquiagem somente um lápis de
olho, rímel e batom.
O glamour da
minha porção mulher que me deixa apta a fazer
os charmes que enlouquece os homens, é baseado
em duas coisas:
tempo e dinheiro. Tempo para hidratar
os cabelos, relaxar e sorrir, e dinheiro para
pagar uma excelente empregada, e para fazer
meu parceiro sentir que nada mais me unia a
ele, que não fosse ele mesmo.
Sempre ouvi dizer
que o trabalho enobrecia, mas sinceramente eu
acho mesmo que o trabalho envelhece, destrói,
estressa, mas dá a liberdade, a autonomia, o
poder de realização, e mantém o meu nariz de
pé.
O
relógio foi com quem mais briguei na minha
vida.
Aprendi a decidi
que roupa usar em apenas 5 minutos.
Na minha bolsa
sempre teve um mini porta bijuteria, um porta
batom, espelho e uma escova de cabelo.
Lembro quando eu
trabalhava em uma multinacional. O Ônibus
passava na esquina da minha casa 5:50. Nessa
época eu ainda cantava na noite de quinta a
domingo. Cansei de chegar em casa as 4:30 e
nem ter tempo de dormi. Tomava um banho e já
colocava a roupa do trabalho. Perdi a conta
das vezes que dormi do Rio Vermelho até o Pólo
Petroquímico de Camaçari, o que me rendeu o
apelido de soninho. O sono do percurso era o
suficiente para me fazer acordar na porta da
empresa toda amarrotada, porém com o espírito
renovado. Lembro também que já cheguei a tomar
12 comprimidos de guaraná por dia para me
manter acesa.
Aprendi
a olhar um homem como um parceiro e não como
um problema.
Minha tolerância
com homens era mínima.
Diferente de
minhas colegas de trabalho e amigas eu nunca
tive um namorado que aprontasse, nem tão pouco
tive um namorado que me fizesse pensar que não
viveria sem ele.
Quando fui traída
pelo grande amor da minha vida. Naquele
instante que vi ele com outra,
tive a sensação que ele havia perdido a única
mulher capaz de lhe fazer feliz. Por
mais que me doesse aquela cena, eu disse para
mim mesma que eu jamais seria só dele, e
surpreendendo a todos, inclusive a mim mesma,
eu não excitei em abandoná-lo mesmo o amando.
Sinceramente? tudo que eu mais estava evitando
era problemas.
Literalmente eu não nasci para conviver com um
ser humano sem confiar nele, mesmo que seja
meu homem.
Mesmo porque
quando me separei do pai das minhas filhas,
meu primeiro marido
eu
prometi a mim mesma que nenhum homem voltaria
a me fazer sofrer.
Ali eu decidi que
trabalharia para ter tudo que eu desejava. Não
aceitaria nada de homem algum.
Tudo
que eu sonhava era em ser feliz.
Eu
descobri que a minha felicidade estava ao meu
alcance.
A medida
que não precisasse pedir nada a ninguém.
Assim como eu não
nasci com o dom de dizer um NÃO, também tenho
dificuldades em ouvir um NÃO.
Concordo que não
é fácil ser uma mulher de verdade; digo até
que é uma missão quase que impossível,
mas que exercitada diariamente torna-se
possível.
Em
prantos fico por aqui.

Mande esse link para uma pessoa especial:
http://1frutoproibido.com/fp-pv-l1a.htm
Escrito e postado por Izabel Cristina da Fonseca,
14
de maio de 2009. (2639)